Arquivo para agosto, 2010

E se meu amigo não for o Rafael Mascarenhas?

Posted in Uncategorized on 4 de agosto de 2010 by luzcamerapichacao

E se meu amigo não for o Rafael Mascarenhas?

Por Gustavo Coelho

Esta semana, vendo as notícias sobre a acidental morte de Rafael Mascarenhas, filho da Cissa Guimarães, vi as imagens da homenagem que os familiares e amigos produziram no local do acidente, o túnel acústico da Gávea, aqui no Rio de Janeiro. Entre músicas, orações e danças, uma ação me chamou atenção, falo é claro, da produção estética-cultural que mais me interessa, ou seja, da pichação e do graffiti. Amigos e inclusive a própria Cissa, num clamor comum a qualquer pessoa que perde alguém querido, desejaram expor na cidade, de uma maneira duradoura, seus votos de homenagem e lembrança àquele que faleceu. Grafitaram e escreveram, então, mensagens ao Rafael pelos muros do túnel.

A meu ver, o que cabe questionar no caso, não é a ação em si. Afinal, a cidade estampar a perda de seus praticantes via escritos de seus também praticantes, me soa legítimo e até reencantador da intimidade de uma urbanidade que tende ao anonimato. O que desejo relativizar e refletir aqui, é a reação tanto da prefeitura que prontamente cedeu as paredes do túnel para tal ação, quanto do público em geral que, se estiveram, como eu, estarrecidos com a fatalidade do caso, não podem deixar que tal sentimento dissimule o que está em jogo nessas escolhas estéticas e políticas das instituições de uma cidadela-oficial, a qual mais uma vez, como historicamente o faz, elegeu e elege a todo tempo, a partir da cidade-tudo, aqueles que, por alguma razão, ou alguma licença, tem ou ganham o direito de ter sobre a cidade seus epitáfios. Quem, por pichar o muro com tinta spray, deve ser assassinado para o bem da cidadela e quem, por ter falecido, deve ganhar no mesmo muro, com a mesma tinta spray, sua lápide, palmas e clamor social? De qual diploma distintivo estamos falando?

Durante minha longa pesquisa com a pichação carioca, acabei acompanhando algumas histórias trágicas, em especial a do Bloody, assassinado em Madureira, e do Vuca, morto após cair do quinto andar de um prédio no centro. Obviamente que sem muita demora, a cidade, intimíssima desta molecada, já expunha por aí seus ditos de memória – “Bloody Vive!”, “Vuca saudades”. E falo destes porque acompanhei, mas passeie pelo Jacarezinho com um olhar em diagonal , e não será nada difícil encontrar um “Sikla para sempre entre nós”, ou ainda um “Caixa Vive”, por todo o Rio de Janeiro. Agora, que heróis são esses, de narrativas épicas já tão esvaziadas em nosso tempo do civilizado, invisíveis para a cidadela-monológica-dos-licenciados, e que das trincheiras da cidade-oficial, parecem reclamar uma brutalidade estética primal, ou seja, o papel de autores-praticantes da cidade-polifônica-tudo?

Faço, então, alguns questionamentos: sabendo o quão árduo é para qualquer grafiteiro obter uma autorização da prefeitura, em que critério foi pautada a avaliação da prefeitura quando, em menos de 24h, autorizou os familiares de Rafael Mascarenhas a Grafitar e Pichar os muros do Túnel? Esta me parece uma resposta fácil e objetiva, ou seja, o critério está claramente no jogo de cena do qual já nos acostumamos a vivenciar, ou seja, num projeto estético-político onde papeis distintos licenciam alguns praticantes da cidade a receber tratamento diferenciado por parte das instituições que a regem.  Digo com isso que a mesma instituição que persegue, bate, assalta e até mata um pichador, é a mesma que licencia uma “pichação do bem”.

Fico me perguntando, então, se os familiares e amigos do Vuca solicitassem à prefeitura que liberassem algum espaço público para servir de memória à sua morte, qual seria a reação? Alguns podem alegar que um pichador faz algo que é fora da lei e que por isso não caberia tal aval. No entanto, se é para ser legalista, a própria CET-RIO, logo após o acidente com Rafael, declarou que era proibido andar de Skate naquele local, ou seja, neste caso, nem mesmo a evidente ilegalidade da pichação serviria como justificativa. De qualquer maneira, esta é uma questão que talvez nem faça muito sentido para a molecada, afinal, a cidade nunca os nega, nunca os rejeita, e jamais os deixaria sem lápide. Quero dizer que se para os habitantes da cidade-romântica valeria a pena, como já vi o pai do Rafael dizer, mudar oficialmente o nome do túnel para Túnel Rafael Mascarenhas, a meninada que me interessa vive em outra frequência, onde a oficialidade estanque do nome da rua e do bairro pouco vale diante da obragem praticante da cidade que é a vida com seus amigos. Portanto, a Av. dos Democráticos já é a Avenida Sikla, enquanto a Ilha do Governador já é a Terra do Vuca faz tempo, mas não para todos.

Finalizando, se a cidade aparenta ser apenas uma, se apenas um mapa parece dar conta dela, é porque você não percebeu que sob os grafites da Cissa Guimarães e dos demais amigos, já haviam outros, é porque você não percebeu que logo após o túnel, à esquerda, tem os nomes do Nado’s, do Tico, do Hair e do Wrangler. Outras cartografias.

PS.: em todo caso, essa história abriu uma jurisprudência. Pichador, se te flagrarem pichando, diga que está homenageando um grande amigo falecido. Se serve para um, serve para todos, ou a lei agora vai escolher muito bem nossas amizades?


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