Arquivo para abril, 2010

De Braços Abertos Para Quem?

Posted in Uncategorized on 19 de abril de 2010 by luzcamerapichacao

Por Gustavo Coelho

Picharam o Cristo, sem dúvida alguma o símbolo primeiro da Cidade Maravilhosa. Símbolo que, como toda representação monumental de qualquer cidade, parece trazer em si, na rigidez e na indestrutibilidade de sua pedra intocável, o arcaico sonho romano, historicamente comum aos que tomam o papel de gestores das cidades ocidentais, de verter em pedra uma harmonia que, por mais ficcional que seja, parece garantir uma aparente fachada estável diante da instabilidade e da ingovernabilidade de um cotidiano que, sendo plural, é, em si mesmo, rebelde. Olhar para o Cristo que ininterruptamente, por mais que passemos por ele sem dar conta, continua a nos abençoar de braços abertos, parece, então, justamente pela força da figura dos seus braços que amparam a todos, nos garantir uma suposta sensação de coesão social. Sensação que, como um placebo, nos acalenta, presenteando com o sentimento da cura e do descolamento diante da inevitável fragmentação social, sobre a qual tal cidade pôde se erguer assim, maravilhosa. Placebo que também garante nossa segura posição do lado menor de um muro invisível que nos convém, obviamente, como sempre, o insuspeito lado do bem.

No entanto, tal placebo não cabe a todos, assim como o próprio Cristo não coube a todos, afinal, há os que, mesmo vilipendiados da condição de autoria da cidade ficção-oficial, pareciam não ter outra saída, a não ser se apaixonar pelo lado do muro que lhes coube, menos glamoroso talvez, mas não menos encantador, afinal, a terra que te serve de pouso, seja lá em quais condições esteja, é ancestralmente acolhedora. E de lá, de onde não se tinham notícias, justamente, se valendo da negligente invisibilidade sob a qual tiveram que inventar dia após dia o seu próprio e independente acolhimento, tramaram a construção espontânea daquilo que, sem nem darem conta, tornava-se a maior parte da mesma cidade que antes lhes expulsava. Não à toa, portanto, hoje parece que não é possível andar pela cidade, mesmo em seus recantos ainda refestelados pelos desejos românticos de outrora, sem ouvir em altos decibéis “TAMOJUNTOEMISTURADO”, “É NÓIS!”, “É TUDO NOSSO!” e “TÁ TUDO DOMINADO”. Alguém mais escapa? Só faltava o Cristo…

Certa vez, em um congresso de pesquisadores em Artes, onde supostamente seria um lugar mais corajoso e dedicado ao estudo para além do bem e do mal acerca destas produções estéticas que interrompem nossas monologias, ouvi uma professora renomada dizer: “Mas eu tenho o direito de viver minha vida sem ouvir o Funk carioca”. Frase que incorpora a mesma reação desesperada de grande parte dos que se vêem discutindo a piXação, quando a todo momento dizem: “Mas se eu trabalhei, juntei um dinheiro e pintei meu muro, tenho o direito de que ele permaneça como eu quero”. Pois bem, me parece que a própria cidade contemporânea, em sua aparência caótica, inchada e insinuada, expositora de tudo, prova, a cada novo encontro com o outro, a falta de amplitude de respostas individualizadas como essas. A mulecada, portanto, herdeira deste complexo e conflituoso cenário social erguido às suas custas, ousam, no entanto, sem ligar muito para seu destino de fragilizados, ao qual estão previamente submetidos, ocupar com suas produções, as superfícies que por tanto tempo, representaram seu anonimato. E vejam que ironia, agora eles, habilidosos na arte de não serem pegos, assinam com um nome inventado os muros da anomia urbana. E a cidade, agora coletivizada pelo avesso, parece, a cada nova marquize escalada, a cada novo pancadão, se mostrar mais íntima daqueles que, motivados pela vontade de vida, reclamam para si o papel de protagonistas da construção da maior parte da cidade.

Ocupantes de uma posição bem inserida, nós, seres bem amparados por uma cidade que nos parece tão acolhedora e inofensiva, quase que natural legitimadora de nossa posição de autores das transformações sociais que entendemos serem “boas”, precisamos, a meu ver, nos por em suspenso. Para tanto, tomando, então, estas produções juvenis desautorizadas que tomam não só o Rio de Janeiro, mas absolutamente todas as grandes metrópoles do mundo e ainda as nem tão grandes assim, pergunto: será que o mundo já não está sofrendo as mais eficientes transformações sociais, mas que, no entanto, correm a nosso despeito e revelia? Será o Cristo limpo, apagado no cotidiano de sua própria mesmice monológica, de fato, um agente de coesão social? Ou será o nome da molecada em seu rosto antes inatingível, uma ação que o atualiza diante de uma cidade que não aceita mais o papel de “se colocar em seu lugar”?

E ainda fica a pergunta: R$ 5 mil por eles? Mas cadê a engenheira Patrícia?


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